Santos: Quem te viu e quem te vê...
 

Por Adilson Gonçalves*

Quem te viu, outrora, encontrou terra insalubre, infestada e febril. Talvez temesse pela sorte de teus filhos, dos mais humildes aos mais célebres. Quem sabe, talvez tivesses ensinado apenas a caridade à pátria...
De fato, parecia ironia do destino ver que o café que fluía por tuas veias não era suficiente para estimular-te contra os maus ares e augúrios que te assolavam, no alvorecer do século XX. Eras porto de saída e entrada, mas, os navegantes temiam teus costados.
Deus, no entanto, sempre teve apreço e planos para ti, quem sabe por evocares todos os seus santos em teu nome. Faltava apenas quem os delineasse e pusesse em prática. No entanto, havia tanto o que fazer, e tantas eram as dificuldades de então, que tal labor não parecia ser obra daquele tempo ou desse mundo.
Quem sabe por isso, chegou a ti um tal Saturnino, cujo nome incomum remetia ao espaço e ao tempo, e que com ele trazia um anel de doutor.

Mas, como te livrar da infestação que pairava sobre ti e que fazia de alagadiços seu berço fétido? Como te proteger dos males que tu mesma produzias e, inconseqüente, lançavas sobre ti própria?
As perguntas eram múltiplas, complexas, desafiadoras... Mas, o engenheiro te olhou com a ciência de sua época e com os olhos do futuro. Por detrás do universo em caos que transparecias, percebeu que para conhecer tua real beleza era preciso ir de mar-a-mar. E, assim, munido de seu engenhoso cinzel, o tal Saturnino se pôs a traçar canais em tua superfície febril, qual um cirurgião de antanho: a buscar na sangria a cura de teus males. Ao mesmo tempo, ele também deve ter se sentido qual Pigmalião, na esperança de ver a cidade pela qual se tomou de amores e cuidados ganhar vida.
Redes subterrâneas e estações elevatórias separaram as chuvas das águas servidas; e os canais foram povoados com peixes-operários, que passaram a habitá-los e, assim, te livraram de todos os outros males, amém!
E lá se vão cem anos desde que tudo isso se passou... Desde então: cresceste, floriste e frutificaste. A engenhosidade de outros "saturninos" - emissários de novas técnicas - continua a cuidar de ti. No entanto, os canais continuam a definir e referenciar tua paisagem mais do que qualquer outro marco ou símbolo urbano. Eles delimitam teus bairros e são quais bússolas para os que te visitam.
Por eles já passaram gerações de gentes e peixes, sem que nunca perdessem o encanto e a função. Assim, eles ainda drenam teus males e te mantêm sã e familiar aos que te sabem desde sempre, e aos que te conhecem pela primeira vez.

O descaso os fere, mas nada que os impeça de continuar a ser caminho de águas e proteção de vidas.
Santos: Quem te viu, naquele alvorecer do vigésimo século, não viu teus canais! Mas, quem te vê, a presente, sabe que não há como te dissociar dessas obras saturninas, que além de te sanearem, também se tornaram marcos urbanos, caros e imprescindíveis aos olhos e corações de todos os santistas, que aprenderam a amar os que te ligam de mar-a-mar.
Então, aos centenários canais: referências urbanas; prestemos, pelo muito que representam, nossas sinceras reverências humanas!

* Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, escritor e professor universitário


 
 

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